A mediunidade consciente atrapalha a comunicação dos guias de Umbanda?

É natural que o médium iniciante construa uma ideia de medo quanto as ações e falas promovidas pelo guia durante o trabalho espiritual.

Sabemos que os trabalhadores do plano astral utilizam o nosso campo mental e este já é o primeiro motivo para não temer pois eles nos respeitam, nos conhecem, se importam conosco e usam aquilo que há de melhor em seus filhos de fé. As palavras, o jeito de falar, as expressões corporais, tudo isso faz parte da essência do médium que mesmo no ato da incorporação se mantém viva.

Como explicado pelo sacertode Géro Maita no vídeo, devemos nos concentrar e compreender que há um envolvimento energético, um compromisso entre o Guia e o médium, mas ambos possuem a sua própria personalidade. Uma vez bem trabalhada e praticada com humildade, com o propósito da caridade, e somente por ela, a mediunidade passa a ser natural e leve. Junto a isso, estudar os aspectos de nossa religião abre campo para compreender que os bons guias espirituais conhecem nosso íntimo, sabem e respeitam os nossos limites.

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FOLHAS E ERVAS DOS ORIXÁS

 

Folhas e Ervas são a base de praticamente tudo que nos cerca.

Na Umbanda é o sangue vegetal que na forma de banhos nos purifica e consagra.

Quem for banhado por elas espanta os males físicos e espirituais.

As ervas possuem vasto uso, nos rituais são muito utilizadas em homenagens, invocando sua proteção para que os atos litúrgicos sejam bem encaminhados. Enfim, seu uso é primordial, pois nada acontece sem folhas.

Um dos grandes mistérios em quase todos os ramos da Magia em todo o mundo é a utilização das plantas, raízes e sementes das ervas mais variadas. São usadas tanto em forma de defumações para os Deuses quanto para banhos purificadores, protetores e de cura.

A seguir citaremos algumas das ervas mais usadas na Umbanda e o Orixá pertencente:

OXALÁ

Levante
Erva Cidreira
Alecrim, Hortelã
Boldo, – algodoeeiro
– colônia, – girassol
– funcho
– malva cheirosa
IEMANJÁ
 
Unha de vaca
fls de Lágrimas de Nossa Senhora
Mastruço, Chapéu de couro
Jasmim, anis
– erva de Santa Luzia
– pata de vaca, – hortelã
– alfazema, – lavanda
FALANGE DAS CRIANÇAS
 
Amoreira, Alfazema
– groselheira
– hortelã
– rosa branca
– alecrim, – laranjeira
– manjericão
– sálvia

OXUM

– alfavaca, – arnica
– calêndula,  camomila
– erva cidreira
– ipê amarelo, – gengibre, rosa branca e amarela

 

OXÓSSI

– carapiá ou contra erva
– salgueiro chorão
– jurema, – eucalipto
-alecrim do campo
– guiné caboclo, – samambaia
– pariparoba, – alfavaca

 

IANSÃ

amor agarradinho
– bambu, – dormideira
– romã, – espada de Iansã
– louro, – manjericão
pitangueira, – alfazema

 

XANGÔ
Café (Folhas)
Mangueira (Folhas)
Erva de São João
– alfavaca roxa
– flamboyant, – manjerona
– hortelã, – levante
– cipó mil-homens
– mentrasto, nega mina
OGUM
Flecha de Ogum,
Erva de Bicho (Folha de Jurupitã)
– vence tudo – abre caminho
-aroeira, -pinhão roxo
– carqueja, – pata de vaca
– agrião, -losna, -jatobá
– espada de São Jorge
PRETOS VELHOS
Guiné
Eucalipto
Arruda
– manjerona
– pinhão roxo
EXU
Mamona, carqueja,
picão preto, unha de gato, arruda, comigo ninguém pode, beladona, cactus, cana de açúcar, mangueira, pimenta da costa, urtiga
pinhão roxo,  chorão
OMULU OU OBALUAIÊ
– alfavaca roxa
– agapanto lilás
– babosa
– fruta de pomba
– mostarda, – mamona
– gervão, – velame
– canela de velho 
NANÃ
– alfavaca, – assa peixe
– erva cidreira
– cipreste, – avenca
– manacá, – quaresmeira
– pinhão roxo
– crisântemos roxos
– oriri

 

ERVAS MAIS USADAS NA UMBANDA

 

Alecrim – Bastante emprego nos rituais de defumação, banho de descarrego. Eficiente destruidor de larvas astrais. O Chá é empregado para combater tosses e bronquites com sucesso.

Arruda – Muita usada contra maus fluídos, inveja, olho-grande, e para benzimentos. Aplica-se na lavagem de contas (guias), e banhos de limpeza ou descarrego. O uso medicinal é contra verminoses e reumatismo em chás, e o sumo aplica-se para reduzir feridas.

Bambu – Poderoso defumador contra larvas astrais, fazendo mistura com palha ou bagaço de cana. Excelente banho / obsessores ou maus espíritos. Na medicina popular é utilizado nas diarreias e perturbações do estômago.

Camomila – Na medicina popular tem larga utilização em chás reguladores dos intestinos; estimula o apetite.

Cana-de-Açucar –  Planta muito importante nos rituais. Seja o bagaço ou o produto, o açúcar, são amplamente utilizadas em defumações para melhoria das condições financeiras, misturando com pó de café virgem, cravo-da-índia, e canela em pó.

Girassol – Tem muito prestígio em defumações pois é poderoso anulador de fluidos negativos destruidora de larvas astrais. Nas defumações usa-se as folhas e nos banhos colocam-se também as pétalas colhidas antes do nascer do sol.

Romã – As folhas são utilizadas em banhos de descarrego. A medicina popular emprega o cozimento das cascas dos frutos para o combate de vermes e o mesmo cozimento para gargarejos nas inflamações de garganta e da boca.

 

ORIXÁS E SUAS ERVAS

Oxalá: Tapete de Oxalá (boldo), algodão, arnica da horta, alecrim, folhas e ramos de palmeiras, folhas de laranjeira, hortelã, erva cidreira, rama de leite, malva branca, saião branco, folha da costa, rosa branca, louro, manjerona, manacá, macaça, erva doce;

Oxossi: Alfavaca do campo, jureminha, caiçara, arruda, abre caminho, malva rosa, capeba, peregum, taioba, sabugueiro, jurema, capim limão, acácia, cipó caboclo, goiabeira, erva de passarinho, guaco, guiné, malva do campo, são gonçalinho, Louro, cabelo de milho, eucalipto, manjericão, samambaia;

Ogum: Espada de São Jorge, crista de galo, folhas de mangueira, Taioba, Cipó chumbo, Palmeira de dendezeiro (Mariwo), abre caminho, alfavaquinha, arnica, aroeira, capim limão, carqueja, dandá da costa, erva tostão, eucalipto, jaboticabeira, losna, pau rosa, peregum, porangaba, são gonçalinho, jatobá;

Xangô: Folha da costa, matamba, betis cheiroso, levante, folha de fogo, cerejeira, figueira branca, amoreira, ameixeira, espada de Santa Bárbara, Comigo ninguém pode, cipó mil homens, folhas de café, folha de manga, Guiné, arruda, limoeiro, umbaúba, vence demanda, urucum, pessegueira, pau pereira, para raio, noz moscada, nega mina, mutamba, mulungu, manjericão, malva cheirosa, jaqueira, folha da fortuna, folha da costa, fedegoso, erva tostão, erva de são João, cavalinha;

Iemanjá: Jarrinha, Rama de leite, cana do brejo, betis cheiroso, algas marinhas, alfavaquinha, flores branca de qualquer espécie, aguapé, camélia, folha da costa, jasmim, lágrima de nossa senhora, macaça, malva branca, taioba branca;

Oxum: Folha de vintém, folha da fortuna, malva, dracena, rama de leite, malva rosa, narciso, flores de tonalidade amarela, lírios de toda espécie, margaridas, flor de maio, amor perfeito, madressilva, quioco, oriri, mutamba, melissa, macaça, ipê amarelo, folha da costa, erva de santa Maria, erva de santa luzia, colônia, camomila, assa peixe, aguapé;

Iansã: Erva santa, umbaúba, folhas de bambu, folha de fogo, capeba, perientária, bredo sem espinho, malmequer branco, dormideira, espada de santa bárbara, flores amarelas ou coral, dracena, papoula, gerânio, erva de passarinho, erva tostão, guiné, jaborandi, louro, malva rosa, nega mina, peregum, pinhão roxo;

Nanã: Alfavaca roxa, assa peixe, avenca, cana do brejo, capeba, cedrinho, cipreste, erva de passarinho, jarrinha, manacá, Maria preta, mutamba, quaresmeira, rama de leite;

Omulu/Obaluaê: Zínia, folhas de laranja lima, folhas de milho, barba de velho, vassoura preta, velame, sete sangrias, sabugueiro, musgo, manjerona, mamona, espinheira santa, carobinha do campo, assa peixe;

Exu: Abranda fogo, mamona, carqueja, picão preto, unha de gato, arruda, comigo ninguém pode, arrebenta cavalo, azevinho, bardana, beladona, cactus, cana de açúcar, cansação, catingueira, corredeira, figueira preta, folha da fortuna, garra do diabo, mangueira, pau d’alho, pau santo, pimenta da costa, pinhão roxo, urtiga, chorão;

As 7 linhas: Geralmente usam todas as ervas não existindo uma em especial.

 

CLASSIFICAÇÃO DAS ERVAS:

Ervas Calmas: Boldo, erva doce, erva cidreira, alecrim do campo, camomila, capim santo, malva branca, malva cheirosa, erva de santa Maria, erva de santa luzia, jasmim, colônia, macaça, aguapé, alfazema, melissa, capim cidrão, folha de maracujá, manjericão, etc…

Ervas fortes: Arruda, guiné, espada São Jorge, espada de Santa Bárbara, carqueja, aroeira, comigo ninguém pode, peregum, nega mina, umbaúba, mamona, picão branco, eucalipto, pinhão roxo, bambuzinho, taioba, lança de Ogum, espada de Ogum, folha de fumo, etc…

Ervas bravas: Barba maldita (cipó azougue), unha de gato, comigo ninguém pode, coroa de cristo, mamona, picão preto, urtiga, chorão, folha de limão, folha de seringueira, etc…

Obs: A combinação das ervas, deve ser feita de acordo com a necessidade, não há mistério, desde que conheçamos as ervas e sua classificação e ainda os Orixás, por exemplo: banho de abre caminho deve-se usar ervas fortes combinadas com Orixás de abre caminho. Ervas bravas de preferência devem ser usadas apenas como bate folha (descarrego) na matéria ou em lugares.

BANHOS DE ERVAS

Arnica – afasta a negatividade

Abre Caminho – novas forças

Alecrim – clareza mental

Arruda – proteção

Anis Estrelado – aumenta a autoestima

Água-de-arroz – calmante

Alfazema – mudança

Camomila – limpeza (bactericida)

Canela – limpeza, força e prosperidade

Cravo da Índia – estimulante

Erva doce – boas energias

Espada de São Jorge – proteção

Folhas de Manga – prosperidade

Folhas de Louro – prosperidade

Fumo – proteção

Flor de sabugueiro – calmante

Guiné – proteção e força

Girassol (sementes) – acelera as mudanças

Hortelã – aceitação

Levante – força, melhorar a autoestima

Losna – corta a negatividade (raivas)

Macela – calmante (bom para insônia)

Manjericão – equilíbrio, renova as células do organismo

Pitanga (folhas) – melhora a circulação

Rosas brancas – limpeza

Rosas vermelhas – energia

Banhos Específicos:

Descarrego:

– 3 galhos de arruda

– 3 galhos de guiné

– 3 galhos de alecrim

– 1 espada de São Jorge

Abre Caminho:

– 7 folhas de loro

– 7 galhos de manjericão

– 7 cravos da índia

– 7 sementes de girassol

ERVAS PARA ENCAMINHAR ESPÍRITOS DESEQUILIBRADOS  –   São usadas para fazer Sacudimentos de Pessoas e Ambientes como: Losna; Cipó; Comigo-Ninguém-Pode; Fumo; Alho; Crisântemo; Bananeira; Abre-Caminhos; Espada de São Jorge; Pinhão Roxo; Guiné; Mamona, entre outras.

ERVAS PARA AMULETO – Usadas com a finalidade de Proteção e Segurança, são as seguintes: Alfavaca ou Manjericão; Guiné; Arruda; Indirí; Alecrim; Canela Preta; Espada de São Jorge, entre outras.

Fontes: 
www.raizdecaboclo.webnode.com
www.tefl.com.br, UMBANDA - A CAM

História e uso do pó de Pemba – (Efum) Africano

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Segundo muitos pesquisadores, a pemba foi trazida pelos bantos, que já a faziam para seus ritos religiosos na África. Esta teoria é reforçada segundo o dicionário de termos afro-brasileiros de Nei Lopes, pelo fato de que a palavra pemba significa cal em kimbundo, e mpemba é o termo para giz em kikongo. A pemba legítima é importada da África.

Efun mineral: é um pó retirado de calcário, que são encontrados na natureza em várias cores, também chamada de tabatinga. É utilizado na feitura de santo que serve para pintar o corpo do neófito, chamada de efum fum (pó branco).

O que torna essas pembas vindas da África tão especiais é o fato de que os artesãos entoam cânticos religiosos para consagrá-las enquanto realizam todas as etapas de sua produção: o minério extraído das jazidas de cal é pulverizado, misturado com corantes e cola, modelado e embrulhado em folhas de bananeira, depois de seco.

Efun (barro branco encontrado no fundo dos rios); foi o primeiro condimento utilizado antes da introdução do Sal. Muito usado em Ebos elaborados para aos Orixas Funfum. O efun simboliza o Dia, por isso, quando em pó, seja soprado ou friccionado seco é utilizado com o objetivo de expandir, vitalizar, iluminar, clarear, despertar, avivar.

Já o Efun molhado com água pura ou com o soro do Igbin é utilizado para acalmar, tranqüilizar, adormecer, suavizar, abrandar, repousar, proteger. Por isso que a cabeça do Yawo em reclusão deve permanecer coberta de pó de Efun durante o Dia, e durante a noite coberta com Waji e pequenas marcas de Efun.

Efun vegetal: é um pó retirado de frutos tipo: obi, orobo, aridan, pichurin, nós-moscada e folhas sagradas.

A mistura do efun mineral e o efum vegetal recebe o nome de Atin e dentro de algumas tradições ele só deve ser preparada pela iyaefun, iyalorixa ou sacerdote do culto.

Efun animal: é um pó retirado de ossos e cartilagens dos animais utilizados em sacrifícios aos orixás. Nas tradições africanas, esta extração deve ser feita pelo axogun ou babalorixá, entrando na preparação de assentamento de orixá.

O pó de pemba é muito eficaz enquanto prática magística, pois raramente deixa sinais de seu uso, o que é conveniente, especialmente quando o encantamento se destina a pessoas que não devem ter conhecimento de seu uso.

A pemba ralada é usada como um dos ingredientes que compõem muitos Afoshés ou pós mágicos, embora existam pós feitos sem pemba, podendo esta ser substituída por barro de rio ou outro tipo de terra, misturado com ervas, sementes, partes de animais e outros ingredientes, com variações decorrentes da influência dos valores culturais dos diversos povos que formaram as tradições religiosas e mágicas brasileiras.

Em decorrência de sua origem, esses pós também são chamados “pembas”, mesmo quando não são feitos com o giz pulverizado, legitimamente africanos.

Fonte: Afoshés, Patuás e Talismãs (A. Yamazaki)

Cultura & Conhecimento – Pierre Verger

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“Francês de nascimento (4 de novembro de 1902, Paris), baiano por opção e africano por paixão”. (LÜHNING, 1998-1999, p.315), assim pode ser definido Pierre Verger, fotógrafo e antropólogo de destaque nos estudos acerca das relações e das trocas entre Brasil e África, com ênfase na cultura e na religião negra no Brasil e na diáspora africana.


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Nascido Pierre Edouard Léopold Verger, pertencia a uma família rica da qual não se sentia parte integrante, mas tentava atender suas expectativas. Aos dezessete anos abandonou os estudos. A idade dos trinta anos marcaria uma mudança em sua trajetória. Verger adquiriu uma máquina fotográfica Rolleiflex, aprendeu técnicas fotográficas com o amigo Pierre Boucher e, após a morte da mãe e sem outros familiares próximos vivos, se lançou no mundo. Buscava um distanciamento do meio onde havia vivido até aquele momento. Por mais de dez anos viajou por vários países, nos cinco continentes, registrando a diversidade cultural e o homem inserido em seu contexto.
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Colaborando com jornais, revistas e agências fotográficas de vários países, Verger visitou Europa, União Soviética, Taiti, China, Japão, Filipinas, Indonésia, Estados Unidos, Guatemala, Argentina, Peru, África, Brasil, sempre com escalas em Paris. A volta ao mundo de Verger cessou em Salvador, Bahia, em 1946, lugar que quis conhecer por influência do romance Jubiabá, de Jorge Amado. Naquela cidade, que para ele parecia a África devido à forte presença da cultura negra, sentiu-se à vontade. Salvador foi escolhida como casa, onde viveu por cinquenta anos, até a sua morte.
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A Bahia mudaria seus interesses e, consequentemente, o rumo de sua obra. O culto aos orixás chamava-lhe a atenção. Em 1948, após conhecer os voduns do Maranhão e os xangôs de Pernambuco, aproximou-se do Candomblé, religião com a qual foi se envolvendo gradualmente até tornar-se filho de santo. Pouco antes de ir para Nigéria e Benin, na África, com uma bolsa de estudos concedida pelo Instituto Francês da África Negra (IFAN), foi iniciado por Mãe Senhora, do Ilê Axé Opô Afonjá, que consagrou “sua cabeça a Xangô por descobrir nele um mensageiro de sua cultura entre a Bahia e a África”. (LÜHNING, 1998-1999, p. 320/321). Verger fez jus ao título, pois tornou-se um emissário entre os dois lados do Atlântico, estreitando laços e mantendo vivo o contato entre os dois continentes.
Na África, Verger realizou seus registros fotográficos com um foco específico: “revelar as formas que o culto africano aos ancestrais e a cultura negra assumiram nos dois lados do Atlântico”. (VERGER). Suas imagens buscavam semelhanças e diferenças entre Brasil e África. Os contatos e o conhecimento prévios adquiridos nos terreiros frequentados e visitados facilitaram seu acesso ao meio religioso africano.
Ao término do período de pesquisa, em 1949, Verger viu-se obrigado a escrever, pois o órgão financiador não aceitou apenas os negativos das fotografias (cerca de dois mil) como resultado, e exigiu um relatório escrito. Essa exigência configurou-se como um momento de mudança: o fotógrafo passou a conjugar foto e texto adentrando nas reflexões antropológicas. A partir de então, ele foi gradualmente passando de fotógrafo a escritor.
Nesse período, o seu objeto de pesquisa começou a ser definido. O interesse pela cultura Iorubá, dos povos da África Ocidental, o fez aprofundar suas investigações na Nigéria, Benin e nas Américas, tornando-se este o tema central de sua obra escrita. O tráfico de escravos, a diversidade religiosa e a botânica das populações negras e dos grupos distanciados pela escravidão são temáticas abordadas por ele.
Os cultos de origem africana estiveram presentes em sua vida para além da pesquisa. Em 1951, tornou-se ogã, cargo do candomblé, do Ilê Axé Opô Afonxá. Em 1953, em Ketu, na África, foi iniciado como babalaô — dono do destino e da adivinhação — e recebeu o nome de Fatumbi — nascido de novo graças ao Ifá —, o qual assumiu desde então.
Em 1966, defendeu na Sorbonne, Paris, a tese Flux et reflux de lu traite des esclaves entre le Golfe du Bénin et Bahia de Todos os Santos, du dix-septième au dix-neuvième siècle, sobre o tráfico de escravos do Golfo do Benin para a Bahia, recebendo o título de Doutor. Aos poucos a fotografia foi ficando de lado até parar de fotografar em 1973.
Ao longo de trinta anos Verger viveu entre a Bahia e o Golfo do Benin. Foi professor e colaborador visitante em várias universidades, a última em Ifé, Nigéria, no final dos anos 1970, quando parou de viajar. A partir de então, dedicou-se à difusão e à publicação de seus trabalhos. Integrou-se à Universidade Federal da Bahia em 1974, onde foi ator essencial para a instalação do Museu Afro-brasileiro, em 1982, em Salvador.
Nos anos 1980, seus trabalhos passaram a ter maior visibilidade, uma vez que uma editora passou a traduzi-los e publicá-los. Em 1988, Verger criou a Fundação Pierre Verger para guarda e difusão de seu acervo e de seu legado. A Fundação, cuja sede fica na casa onde morou, no bairro de Engenho Velho de Brotas, em Salvador, abriga “dezenas de artigos, livros, sessenta e dois mil negativos fotográficos, gravações sonoras, filmes em película e vídeo, além de uma coleção preciosa de documentos, fichas, correspondências, manuscritos e objetos”. (FUNDAÇÃO PIERRE VERGER); e se propõe a manter intercâmbio entre Bahia e Golfo de Benin, além de ser um centro informação e de apoio à pesquisa.
 “O universo das culturas e religiões afro-americanas, especialmente o contato entre a África Ocidental e o Brasil” (LÜHNING, 1998-1999, p. 321) é tema central dos escritos de Verger, considerado “um dos maiores conhecedores do universo da cultura iorubá, graças ao seu desejo de conhecer, movido por uma imensa vontade de ser livre de compromissos desnecessários, e pela curiosidade de observar e entender as múltiplas facetas do ser humano”. (LÜHNING, 1998-1999, p. 321). Segundo Lühning (1998-1999, p. 325), sua obra pode ser assim dividida:

1) documentação fotográfica; 2) história das relações entre a África e o Brasil — influências mútuas: 3) artes; 4) religiões tradicionais africanas e brasileiras, incluindo aspectos de transe; 5) trabalhos de caráter sociológico; 6) tradições orais, processos de transmissão oral, literatura oral; 7) adivinhação; 8) etnobotânica; e 9) publicações com teor autobiográfico.

Seu último livro Ewe: o uso das plantas na sociedade iorubá foi publicado em 1995. Verger morreu em Salvador, em fevereiro de 1996, deixando um número incerto de fotografias e textos publicados em diversas línguas e países e uma enorme contribuição para o conhecimento do trânsito cultural negro no Atlântico.

Alguns de seus títulos publicados no Brasil:
Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (1981);
•Lendas dos Orixás (1981);
•Notícias da Bahia – 1850 (1981);
•50 anos de fotografia (1982);
•Lendas Africanas dos Orixás (1985);
•Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX (1987);
•Centro Histórico de Salvador (1989);
•Artigos (A feiticeira, Mulher e candomblé, Mercados Nagôs no Benin) (1992);
•Ewe: o uso das plantas na sociedade iorubá (1995).

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Fonte: MORIM, Júlia. Pierre Fatumbi VergerPesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: