Cultura & Conhecimento – Pierre Verger

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“Francês de nascimento (4 de novembro de 1902, Paris), baiano por opção e africano por paixão”. (LÜHNING, 1998-1999, p.315), assim pode ser definido Pierre Verger, fotógrafo e antropólogo de destaque nos estudos acerca das relações e das trocas entre Brasil e África, com ênfase na cultura e na religião negra no Brasil e na diáspora africana.


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Nascido Pierre Edouard Léopold Verger, pertencia a uma família rica da qual não se sentia parte integrante, mas tentava atender suas expectativas. Aos dezessete anos abandonou os estudos. A idade dos trinta anos marcaria uma mudança em sua trajetória. Verger adquiriu uma máquina fotográfica Rolleiflex, aprendeu técnicas fotográficas com o amigo Pierre Boucher e, após a morte da mãe e sem outros familiares próximos vivos, se lançou no mundo. Buscava um distanciamento do meio onde havia vivido até aquele momento. Por mais de dez anos viajou por vários países, nos cinco continentes, registrando a diversidade cultural e o homem inserido em seu contexto.
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Colaborando com jornais, revistas e agências fotográficas de vários países, Verger visitou Europa, União Soviética, Taiti, China, Japão, Filipinas, Indonésia, Estados Unidos, Guatemala, Argentina, Peru, África, Brasil, sempre com escalas em Paris. A volta ao mundo de Verger cessou em Salvador, Bahia, em 1946, lugar que quis conhecer por influência do romance Jubiabá, de Jorge Amado. Naquela cidade, que para ele parecia a África devido à forte presença da cultura negra, sentiu-se à vontade. Salvador foi escolhida como casa, onde viveu por cinquenta anos, até a sua morte.
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A Bahia mudaria seus interesses e, consequentemente, o rumo de sua obra. O culto aos orixás chamava-lhe a atenção. Em 1948, após conhecer os voduns do Maranhão e os xangôs de Pernambuco, aproximou-se do Candomblé, religião com a qual foi se envolvendo gradualmente até tornar-se filho de santo. Pouco antes de ir para Nigéria e Benin, na África, com uma bolsa de estudos concedida pelo Instituto Francês da África Negra (IFAN), foi iniciado por Mãe Senhora, do Ilê Axé Opô Afonjá, que consagrou “sua cabeça a Xangô por descobrir nele um mensageiro de sua cultura entre a Bahia e a África”. (LÜHNING, 1998-1999, p. 320/321). Verger fez jus ao título, pois tornou-se um emissário entre os dois lados do Atlântico, estreitando laços e mantendo vivo o contato entre os dois continentes.
Na África, Verger realizou seus registros fotográficos com um foco específico: “revelar as formas que o culto africano aos ancestrais e a cultura negra assumiram nos dois lados do Atlântico”. (VERGER). Suas imagens buscavam semelhanças e diferenças entre Brasil e África. Os contatos e o conhecimento prévios adquiridos nos terreiros frequentados e visitados facilitaram seu acesso ao meio religioso africano.
Ao término do período de pesquisa, em 1949, Verger viu-se obrigado a escrever, pois o órgão financiador não aceitou apenas os negativos das fotografias (cerca de dois mil) como resultado, e exigiu um relatório escrito. Essa exigência configurou-se como um momento de mudança: o fotógrafo passou a conjugar foto e texto adentrando nas reflexões antropológicas. A partir de então, ele foi gradualmente passando de fotógrafo a escritor.
Nesse período, o seu objeto de pesquisa começou a ser definido. O interesse pela cultura Iorubá, dos povos da África Ocidental, o fez aprofundar suas investigações na Nigéria, Benin e nas Américas, tornando-se este o tema central de sua obra escrita. O tráfico de escravos, a diversidade religiosa e a botânica das populações negras e dos grupos distanciados pela escravidão são temáticas abordadas por ele.
Os cultos de origem africana estiveram presentes em sua vida para além da pesquisa. Em 1951, tornou-se ogã, cargo do candomblé, do Ilê Axé Opô Afonxá. Em 1953, em Ketu, na África, foi iniciado como babalaô — dono do destino e da adivinhação — e recebeu o nome de Fatumbi — nascido de novo graças ao Ifá —, o qual assumiu desde então.
Em 1966, defendeu na Sorbonne, Paris, a tese Flux et reflux de lu traite des esclaves entre le Golfe du Bénin et Bahia de Todos os Santos, du dix-septième au dix-neuvième siècle, sobre o tráfico de escravos do Golfo do Benin para a Bahia, recebendo o título de Doutor. Aos poucos a fotografia foi ficando de lado até parar de fotografar em 1973.
Ao longo de trinta anos Verger viveu entre a Bahia e o Golfo do Benin. Foi professor e colaborador visitante em várias universidades, a última em Ifé, Nigéria, no final dos anos 1970, quando parou de viajar. A partir de então, dedicou-se à difusão e à publicação de seus trabalhos. Integrou-se à Universidade Federal da Bahia em 1974, onde foi ator essencial para a instalação do Museu Afro-brasileiro, em 1982, em Salvador.
Nos anos 1980, seus trabalhos passaram a ter maior visibilidade, uma vez que uma editora passou a traduzi-los e publicá-los. Em 1988, Verger criou a Fundação Pierre Verger para guarda e difusão de seu acervo e de seu legado. A Fundação, cuja sede fica na casa onde morou, no bairro de Engenho Velho de Brotas, em Salvador, abriga “dezenas de artigos, livros, sessenta e dois mil negativos fotográficos, gravações sonoras, filmes em película e vídeo, além de uma coleção preciosa de documentos, fichas, correspondências, manuscritos e objetos”. (FUNDAÇÃO PIERRE VERGER); e se propõe a manter intercâmbio entre Bahia e Golfo de Benin, além de ser um centro informação e de apoio à pesquisa.
 “O universo das culturas e religiões afro-americanas, especialmente o contato entre a África Ocidental e o Brasil” (LÜHNING, 1998-1999, p. 321) é tema central dos escritos de Verger, considerado “um dos maiores conhecedores do universo da cultura iorubá, graças ao seu desejo de conhecer, movido por uma imensa vontade de ser livre de compromissos desnecessários, e pela curiosidade de observar e entender as múltiplas facetas do ser humano”. (LÜHNING, 1998-1999, p. 321). Segundo Lühning (1998-1999, p. 325), sua obra pode ser assim dividida:

1) documentação fotográfica; 2) história das relações entre a África e o Brasil — influências mútuas: 3) artes; 4) religiões tradicionais africanas e brasileiras, incluindo aspectos de transe; 5) trabalhos de caráter sociológico; 6) tradições orais, processos de transmissão oral, literatura oral; 7) adivinhação; 8) etnobotânica; e 9) publicações com teor autobiográfico.

Seu último livro Ewe: o uso das plantas na sociedade iorubá foi publicado em 1995. Verger morreu em Salvador, em fevereiro de 1996, deixando um número incerto de fotografias e textos publicados em diversas línguas e países e uma enorme contribuição para o conhecimento do trânsito cultural negro no Atlântico.

Alguns de seus títulos publicados no Brasil:
Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (1981);
•Lendas dos Orixás (1981);
•Notícias da Bahia – 1850 (1981);
•50 anos de fotografia (1982);
•Lendas Africanas dos Orixás (1985);
•Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX (1987);
•Centro Histórico de Salvador (1989);
•Artigos (A feiticeira, Mulher e candomblé, Mercados Nagôs no Benin) (1992);
•Ewe: o uso das plantas na sociedade iorubá (1995).

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Fonte: MORIM, Júlia. Pierre Fatumbi VergerPesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:
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