Uniões antipáticas

 

Uma vez que os Espíritos simpáticos são levados a unir-se, como é que, entre os encarnados, muitas vezes a afeição existe apenas de um dos lados e o amor mais sincero seja acolhido com indiferença e até com repulsa? Como é, além disso, que a mais viva afeição entre dois seres pode transformar-se em antipatia e mesmo em ódio?

Com essa questão, Kardec inicia o tópico “Uniões antipáticas”, tratado nas questões 939 a 940-a de O livro dos espíritos, Livro Quarto – Esperanças e Consolações, exclusivamente sob o prisma do amor entre homem e mulher, contudo, o tema é bem mais abrangente, tanto que também foi abordado sob outros ângulos no Livro Segundo – Mundo espiritual ou dos Espíritos, da mesma obra básica, com os títulos “Relações de simpatia e de antipatia entre os Espíritos.

Metades Eternas” (questões 291 a 303-a) e “Simpatias e antipatias terrenas” (questões 386 a 391).
Em se tratando das relações conjugais, há pessoas que amam sem ser amadas, o que lhes pode trazer grande sofrimento.
E por que exatamente isso ocorre? Este é um assunto importantíssimo, porque diz respeito ao relacionamento interpessoal, que começa na família e se reflete em todos os demais setores da humanidade.
O progresso, a construção e o funcionamento de uma sociedade justa e feliz dependem, essencialmente, da união e do entendimento entre as pessoas, sendo o lar um ótimo campo de exercício desse amor fraternal.
Jesus legou-nos o ensinamento de que não há como amar a Deus sem amar ao próximo. O Espiritismo, corroborando este ensinamento, afirma que os laços da fraternidade se constroem pela prática da caridade.
Mas, afinal, qual o significado da palavra “antipatia”?
Para entender melhor a antipatia, convém iniciar estudando o seu antônimo, a “simpatia”, cuja definição, de acordo com o dicionário, é semelhante ao conceito espírita: “1. afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas”.1
A antipatia, portanto, é o oposto da simpatia, podendo ser resumida, também no sentido trivial, como a aversão espontânea ou gratuita por alguém ou algo, malquerença, repulsão, conhecida popularmente, quando se trata de relacionamento entre os casais, de “incompatibilidade de gênios”.

Antes de aprofundar esta questão, é preciso recordar, ainda que brevemente, a lei das afinidades estudada pelo Espiritismo. A afinidade é o laço de simpatia que une os seres vivos entre si. É pela afinidade que se formam os grupos de amigos em ambos os planos da vida:
– A simpatia ou a antipatia têm as suas raízes profundas no Espírito, na sutilíssima entrosagem dos fluidos peculiares a cada um e, quase sem sensações experimentadas pela criatura, desde o pretérito delituoso, em iguais circunstâncias.

Devemos, porém, considerar que toda antipatia, aparentemente a mais justa, deve morrer para dar lugar à simpatia que edifica o coração para o trabalho construtivo e legítimo da fraternidade.2
Encampando a proposta do benfeitor espiritual acima reproduzida, perguntamo-nos: como transformar a antipatia em simpatia, sobretudo no relacionamento a dois? Para chegar a essa resposta, é preciso entender que, em muitos casos, a atração ou repulsão existente entre os Espíritos explica-se pela reencarnação, em que dois seres se reencontram, desatando os nós dos sentimentos adormecidos no imo do ser.

Todavia, nem sempre a simpatia ou a antipatia que nutrem um pelo outro tem por princípio um conhecimento anterior entre eles:

Entre os seres pensantes há ligações que ainda não conheceis. O magnetismo é o piloto dessa ciência, que mais tarde compreendereis melhor.3 Não sem razão, Léon Denis assevera que “a lei das atrações e correspondências rege todas as coisas…”,4 donde se conclui que a afinidade pode ser de natureza moral ou fluídica, o que remete a outra questão da primeira obra básica:
[…] Há duas espécies de afeição: a do corpo e a da alma, tomando-se muitas vezes uma pela outra. A afeição da alma, quando pura e simpática, é durável; a do corpo é perecível. Eis por que, com muita frequência, os que julgavam amar-se eternamente acabam por odiar-se, desde que a ilusão se desfaça.5

Por exemplo, a circunstância de duas pessoas não se simpatizarem, de não se entrosarem nos gostos e preferências, não significa que sejam más. Este é um aspecto interessante da relação entre o casal que nem sempre é levado em conta:
Dois Espíritos não são necessariamente maus por não simpatizarem um com o outro. Essa antipatia pode resultar da diversidade no modo de pensar. Mas, à medida que se forem elevando, as diferenças se apagam e a antipatia desaparece.6 (Grifos nossos.)

Paradoxalmente, as diferenças existentes entre os pares, na convivência conjugal, servem mais para unir do que para separá-los. Tudo depende de como se comportam diante das inumeráveis situações da vida, que apresentam grandes oportunidades de aprendizado, de exercício da tolerância e do combate ao egoísmo, despertando a centelha do fogo sagrado do amor que dormita no coração de todos.7
Nas lições do Espiritismo, sobre o combate ao egoísmo, está a chave para fazer morrer a antipatia, dando lugar à simpatia:
O egoísmo, esta chaga da humanidade, tem que desaparecer da Terra, porque impede o seu progresso moral. É ao Espiritismo que está reservada a tarefa de fazê-la elevar-se na hierarquia dos mundos. O egoísmo é, pois, o alvo para o qual todos os verdadeiros crentes devem apontar suas armas, sua força, sua coragem. Digo:  coragem, porque é preciso mais coragem para vencer a si mesmo, do que para vencer os outros. Que cada um, portanto, empregue todos os esforços a combatê-lo em si, certo de que esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho é a fonte de todas as misérias terrenas. É a negação da caridade e, por conseguinte, o maior obstáculo à felicidade dos homens.7

Não se desconsidere, porém, que, na pauta da lei de causa e efeito, muitos casais se reencontram para o necessário ajuste de contas. O encantamento dos primeiros encontros, com o tempo e a convivência, cede lugar à decepção, à amargura. Esse é um momento crítico, no qual entra o esforço de cada um em procurar vencer essas naturais resistências, que tendem a desaparecer com o cultivo da prece, do perdão, da compreensão:

[…] quantos não são os que acreditam amar perdidamente, porque julgam apenas pelas aparências, mas que, quando obrigados a viver com as pessoas, não tardam a reconhecer que não passava de um entusiasmo material! Não basta uma pessoa estar enamorada de outra que lhe agrada e em quem supõe belas qualidades; é vivendo realmente com ela que poderá apreciá-la. Por outro lado, quantas uniões, que a princípio parecem destinadas à antipatia, acabam se transformando em amor terno e duradouro, porque baseado na estima, depois que o casal passa a conhecer-se melhor e analisar-se mais de perto! Cumpre não esquecer que é o Espírito quem ama, e não o corpo, de modo que, dissipada a ilusão material, o Espírito vê a realidade.5

Ressalve-se, porém, que ninguém está condenado a viver infeliz ao lado de quem lhe desagrada. Nem mesmo Jesus consagrou a indissolubilidade absoluta do casamento, tanto que afirmou: “Foi por causa da dureza dos vossos corações que Moisés permitiu que despedísseis as vossas mulheres”:8

[…] Isso significa que, desde o tempo de Moisés, não sendo a afeição mútua a única finalidade do casamento, a separação podia tornar-se necessária.

Acrescenta, porém: “no princípio não foi assim”, isto é, na origem da humanidade, quando os homens ainda não estavam pervertidos pelo egoísmo e pelo orgulho e viviam segundo a lei de Deus, as uniões, baseadas na simpatia, e não na vaidade e na ambição, não davam motivo ao repúdio.8 (Grifos nossos.)
Estas conclusões não devem servir de pretexto ao desfazimento das uniões conjugais, ante a primeira dificuldade. Pelo contrário. Devem estimular a busca de soluções, todas elas encontradas no Evangelho de Jesus, para que a antipatia morra, dando lugar à simpatia.

Portanto, seja no relacionamento em família, seja no relacionamento em sociedade, a cada um de nós compete uma cota de esforço diário para melhorar a convivência com o nosso próximo mais próximo.

(Texto escrito por Christiano Torchi na revista O Reformador divulgada pela Federação Espírita Brasileira)

REFERÊNCIAS:

1 DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. versão 3.0.
2 XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. q. 173.
3 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2014. q. 388.
4 BORGES, A. Merci Spada. Doutrina espírita no tempo e no espaço. 800 verbetes especializados. 2. ed. São Paulo: Panorama Comunicações, 2001. Verbete sintonia, p. 333.
5 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2014. q. 939.
6 ____. ____. q. 390.
7 ____. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 11, it. 9 e 11, respectivamente.
8 ____. ____. cap. 22, it. 5.

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